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Pesquisa: Literatura Brasileira de Expressão Alemã

Pesquisa: Literatura Brasileira de Expressão Alemã > Apoio teórico

APOIO TEÓRICO

 

Sobre memória, colonialismo/pós-colonialismo e imagologia

 

Celeste Ribeiro de Sousa

 

As obras da literatura produzida pelos imigrantes de língua alemã no Brasil, ou seja, da “literatura brasileira de expressão alemã”, até onde se sabe (o totum deste universo ainda não é conhecido), têm um forte traço memorialista.

 

Embora não haja aqui o objetivo de colocar o conceito geral de memória em discussão, faz-se necessário buscar nas pesquisas já realizadas as versões, que podem dar sustentação ao conceito de memória ligado ao registro literário levado a cabo pelos imigrantes de língua alemã e seus descendentes no Brasil.

 

Tanto Maurice Halbwachs (1877-1945), em A memória coletiva, quanto Pierre Nora (1931-) em Les lieux de mémoir, ou Aleida Assmann (1947-), em Erinnerungsräume,  são nomes, que se têm preocupado com os estudos da memória nestas últimas décadas.

 

 A memória pode começar por ser descrita como uma espécie de arquivo, um arquivo especial, um espaço cerebral/virtual em que seus conteúdos estão em constante movimento. Sem a memória, a vida psíquica do indivíduo e, portanto do imigrante, não seria possível. Dela dependem as percepções de formas, movimentos e consistências, abstrações, comparações, juízos, raciocínios, a própria linguagem, ou seja, sem ela, não há intelecto, que possa se desenvolver, ou moral, que assegure a vida civilizada, a identidade individual, grupal, coletiva. A memória seria uma capacidade humana, voltada à conservação, reprodução, reconhecimento e localização de estados de consciência experimentados no passado; ou “a possibilidade de dispor dos conhecimentos passados” (Abbagnano, 1982, p. 629), que já estiveram disponíveis.

 

Dois aspectos marcam a memória: a conservação/persistência dos conhecimentos do passado (memória retentiva ou memória pura); b) a possibilidade de evocar o conhecimento passado e de torná-lo presente/atual (lembrança ou dedução), este um aspecto da memória eminentemente humano. Segundo Christian Wolff (1679-1754) e Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), a memória é a faculdade de reconhecer as ideias reproduzidas e as coisas por estas representadas. Para David Hume (1711-1776), o funcionamento da memória está atrelado a um mecanismo associativo, presidido por três leis: a da semelhança, a da contiguidade e a da causalidade entre os pensamentos ou ideias. A psicanálise e a teoria da forma vão mostrar que os interesses, as atitudes volitivas e a própria personalidade também desempenham papel importante no funcionamento da memória (Abbagnano, 1982, p. 629-270).

 

No âmbito geral da memória, podem-se distinguir a memória de longo prazo, a memória de curto prazo e a memória operacional ou de trabalho. A memória de longo prazo armazena informações e processos fora do campo da consciência imediata; a memória de curto prazo é responsável pela retenção na mente das informações por um curto espaço de tempo; a memória operacional ou de trabalho encarrega-se não só da permanência temporária das informações na mente como também da sua manipulação, do engendramento de novas combinações entre as informações. Este último tipo de memória tem capacidade limitada, capacidade que difere de indivíduo para indivíduo, e isto significa que quanto mais perto se está do seu limite mais difícil fica pensar, considerando-se pensar como a arte de combinar informações de formas diferentes. À medida em que novas informações e conhecimentos passam a ocupar a memória, sua arquitetura geral (incluindo a física) também vai sendo por eles continuamente modificada.

 

O neurocientista austríaco Eric Kandel (1929 -), radicado nos USA, prêmio Nobel de medicina em 2000, no livro In search of memory, de 2007, reafirma que a memória é imprescindível à existência, ela é a cola que agrega, congrega e retém a vida mental, providenciando a sensação de continuidade em nossas vidas. Diz ele que os circuitos neurais relativos à memória possuem conexões sinápticas, que se alteram com o aprendizado, formando este mecanismo a base da memória. O rearranjo da memória depende da presença de estímulos apropriados, que se associem a experiências de aprendizado e espicacem a imaginação, porque o cérebro não gosta de pensar e o faz por necessidade e quando vislumbra uma recompensa (dopamina). Como é que alguém pode se lembrar de acontecimentos da infância por toda uma vida, se nos esquecemos da maioria das coisas? Uma das perguntas colocadas por Eric Kandel em In search of memory é:

 

How did terror sear the banging on the door of our apartment into the molecular and cellular fabric of my brain with such permanence that I can relive the experience in vivid visual and emotional detail more than half a century later? […] ‘Down with Jews! Heil Hitler! Destroy the Jews!’ erupted in a nationalistic frenzy, beating up Jews and destroying their property. They humiliated Jews by forcing them to get on their knees and scrub the streets to eliminate every vestige of anti-annexation political graffiti”. “Virginia Woolf falls into this category. Her memories of childhood were always at the edge of her consciousness, ready to be summoned up and incorporated into everyday moments, and she had an exquisite ability to describe the details of her recalled experiences. Thus, years after the death of her mother, Woolf's memory of her was still fresh: . . . there she was, in the very center of that great Cathedral space which was childhood; there she was from the very first. My first memory is of her lap. . . . Then I see her in her white dressing gown on the balcony. ... It is perfectly true that she obsessed me in spite of the fact that she died when I was thirteen, until I was forty-four. . . . these scenes . . . why do they survive undamaged year after year unless they are made of something comparatively permanent? Other people call up their past life only occasionally. Periodically, I think back and  recall the two police officers coming to our apartment and ordering us to leave on the day of Kristallnacht. When this memory enters my consciousness, I can once again see and feel their presence. I can visualize the worried expression on my mother's face, feel the anxiety in my body, and perceive the confidence in my brother's actions while retrieving his coin and stamp collections. Once I place these memories in the context of the spatial layout of our small apartment, the remaining details emerge in my mind with surprising clarity. Remembering such details of an event is like recalling a dream or watching a movie in which we play a part. We can even recall past emotional states, though often in a much simplified form. To this day I remember some of the emotional context of my romantic encounter with our housekeeper Mitzi. In: http://www.evolbiol.ru/large_files/kandel.pdf.

 

Para Kandel há um link entre memória e história. Os acontecimentos históricos, que não são recordados com clareza, podem ser facilmente esquecidos. Por exemplo, o genocídio não é só o extermínio de uma raça, mas também a erosão da memória dessa raça no contexto da história.

 

A neurociência, porém, ainda está longe de ter uma explicação precisa para o funcionamento da memória. Segundo outro neurocientista, Olaf Sporns (1963-),

 

the human brain is a network of extraordinary complexity - a network not by way of metaphor, but in a precise and mathematical sense: an intricate web of billions of neurons connected by trillions of synapses. How this network is connected is important for virtually all facets of the brain's integrative function [the "connectome”]. (Resenha in: http://mitpress.mit.edu/books/discovering-human-connectome-0).

 

Seria, portanto, o “conectoma” que presidiria à decodificação, ao registro e à preservação dos movimentos das emoções e dos pensamentos humanos.

 

Se, em 1914, o filósofo Ortega y Gasset (1883-1955) escreveu “eu sou eu e minha circunstância”, hoje, Sebastian Seung (1966-), outro neurocientista, gosta de dizer “I am my connectome”. In: (http://www.youtube.com/watch?v=HA7GwKXfJB0).

 

É sabido que o Brasil foi colonizado pelos portugueses (eles mesmos a um só tempo colonizadores e colonizados), que o Brasil obteve sua independência em 1822, que a primeira grande onda imigratória de língua alemã tem seu começo oficializado no ano de 1824, com a chamada de conterrâneos da imperatriz Leopoldine para povoar o país. Uma segunda onda imigratória vem a ocorrer depois das frustradas revoluções de 1848, nos estertores do Sacro Império, e uma terceira depois da derrota Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Uma quarta onda surge à época de Hitler com a ascensão do nazismo e suas consequências. Nesta última onda, observa-se um fenômeno peculiar: alguns alemães e/ou seus descendentes voltam à Alemanha para ficar ou lutar ao lado das forças de Hitler e, depois da derrota, retornam ao Brasil. No Brasil, sempre há imigrantes recentes, convivendo com imigrantes antigos, cujos descendentes já são nascidos em território brasileiro. No caso dos cidadãos do Kaiserreich, da República de Weimar ou do III Reich (três dos vários nomes que a Alemanha conheceu ao longo da história) e seus descendentes, mesmo que nascidos em terras brasileiras, todos eles continuam a ser considerados cidadãos alemães, pois encontram-se sob o jus sanguinis, quer dizer, é o sangue que determina sua nacionalidade.

 

Como se disse, a literatura (stricto sensu) da imigração alemã no Brasil é constituída em grande parte por memórias; memórias, que plasmam das formas mais variadas a visão da realidade brasileira; memórias, que iluminam determinadas faces do Brasil e também da Alemanha, em sentido lato; memórias, que perenizam as primeiras memórias escritas e também aquelas que permaneceram na oralidade. Estas memórias de segunda, de terceira e quarta mão ainda se encontram, por exemplo, em obras de Iris Zwanziger (1918-2007), como a coletânea Die alte Truhe (O velho baú), de 2000 ou em textos de Liti Belinha (1941-), como a trilogia O campanário de tempo, de 2006.

 

A pergunta, que até hoje não encontrou uma resposta satisfatória, é como explicar esta tendência teimosa, insistente em preservar e representar estas memórias? Como interpretar este fenômeno? Tratar-se-ia simplesmente de memórias nostálgicas das primeiras impressões e vivências dos antepassados na terra hospedeira, que deverão (por prazer) ser transmitidas de geração em geração, à semelhança das lendas, dos contos de fadas, das sagas? E estas reflexões, de repente, trazem à memória a frase de John Maxwell Coetzee (1940-): “In African thought, the consensus is that after the seventh generation we can no longer distinguish between history and myth.” (Coetzee, 2008, p. 3). Ou tratar-se-ia de uma espécie de resistência à cultura brasileira, resistência à completa aculturação? Ou ainda tratar-se-ia de um modo de colonialismo alemão no Brasil ou de um traço do pós-colonialismo tanto alemão quanto brasileiro?  Ou estariam todas estas hipóteses enlaçadas em um só nó?

 

Oriundos de um lugar e transplantados a um outro país, os imigrantes são indivíduos, que passam a viver num entre-espaço e num entre-tempo. Essa é a condição de sua nova identidade. A cultura da memória, portanto, é para os imigrantes condição sine qua non da sua própria sobrevivência em novo território quer enquanto indivíduos quer enquanto coletividade. Interessante nesse processo é averiguar o que é apagado e o que é iluminado.

 

No caso da imigração de língua alemã no Brasil, os imigrantes provêm de lugares díspares, pois como se sabe as fronteiras geográfico-políticas da Alemanha variam bastante ao longo dos séculos. Portanto, é no espaço da memória imigrante que ocorre o processo de ressignificação das identidades de tão variadas procedências num nova terra comum (a colônia), a construção e preservação de uma nova identidade, que passa a ser o pilar de legitimação do indivíduo e da coesão do grupo no novo território, o fazimento, o arranjo de uma nova tradição, a dar suporte psíquico à nova existência, já que o solo dá amplo suporte material à nova vida.

 

 A literatura é, entre outros, um importante instrumento de apoio ao funcionamento dessa memória tanto individual quanto coletiva, transformando-se ela mesma, em simultâneo, em um espaço dessa memória. É como se ela fosse uma extensão artificial da memória natural, que necessita, porém, de análise e interpretação específicas.

 

Nela é possível, por exemplo, encontrar a dinâmica dos registros das várias memórias tanto no plano individual de cada autor quanto no plano de grupos de autores e de obras, quanto no plano dos vários espaços e épocas. Qual e como será caracterizada a mobilidade das tentativas de registro da paisagem brasileira e alemã desde a conquista e o desbravamento da selva, passando pela preparação da terra produtiva, à mudança do padrão rural para o padrão urbano. Lá estão os costumes da infância e sua progressiva adaptação, hábitos culinários, festivos, a comemoração do Natal. A literatura é o testemunho par excellence da preservação da língua e da cultura alemã em terras brasileiras. Ali estão os registros do amor residual pela Alemanha, do novo amor pelo Brasil como país acolhedor, o Brasil de gentes primitivas e bárbaras, de revoltas, de guerras com o Paraguai, o Brasil dos Mucker, dos Brummer.

 

Para construir essa nova identidade e tradição, os imigrantes e seus descendentes necessitaram fazer, pelo menos, uma contraposição, já que identidades só se estabelecem numa dinâmica relacional. A cultura luso-brasileira e/ou brasileira constituem esse contraponto, que torna visível a nova identidade em construção, quer individual quer comunitária.

 

Além da dinâmica da formação de uma nova identidade ressignificada, de um outro espaço de memória, há a considerar na comunidade da colônia de língua alemã no Brasil outros 2 fenômenos: o do pangermanismo e o do nazismo. Tais fenômenos permitem ver nessa dinâmica traços colonialistas e pós-colonialistas.

 

O conceito de pangermanismo (Pangermanismus ou Alldeutsche Bewegung) tem suas raízes ocultas fincadas nos primórdios da história medieval alemã, de que o nome Sacro Império Germânico (Heiliges Reich Deutscher Nation) é testemunha. Com o enfraquecimento progressivo do poder central deste Império e a progressivo fortalecimento dos vários senhores feudais, o anelo por uma nação grande e coesa, pelo Império do passado, nunca se desvanece e, em 1871, a Prússia consegue dar-lhe uma feição concreta, tanto que a Alemanha passa a ser conhecida como “Império Alemão” (Deutsches Kaiserreich). E, no entanto, esta é uma época em que os alemães emigram! Emigram por dificuldades econômicas (os camponeses permanecem reféns dos Junker e o número de filhos aumenta para as poucas terras, o maquinário agrícola estimulado pela Revolução Industrial que começa a chegar ao Império, também empurra os camponeses para fora das terras. Junto com eles vão os artesãos, que nada podem contra os teares mecânicos). Mas há outras causas por trás da emigração. Bismarck não tolera dentro de seu Império a atividade de minorias religiosas (menonitas, judeus) ou políticas (socialistas e liberais remanescentes da revolução de 1848).

 

As pessoas de fala alemã que se veem escorraçadas de seus rincões natais emigram. Todavia, dado o fato do movimento de unificação dos Estados alemães ter obedecido à força militar, Bismarck fomenta e alimenta o velho Pangermanismo, uma ideologia nacionalista congregadora, na forma do Deutschtum (alemanidade), uma mistura de autoritarismo prussiano com ideais românticos, tão forte que repercute em todos os territórios onde há imigrantes de língua alemã. Trata-se de uma ideologia em que a nacionalidade é determinada, não pelo lugar onde se nasce (jus solis), mas pelo sangue (jus sanguinis). Desta maneira, todos os imigrantes alemães bem como seus descendentes (filhos, netos, bisnetos, trinetos) são considerados igualmente alemães, mesmo tendo nascido no estrangeiro, por exemplo, no Brasil, que lhes confere a nacionalidade brasileira.

 

É certo que aqueles, que chegam ao Brasil, encontram situações inesperadas e adversas à sua assimilação, à sua aculturação (faltam escolas, faltam igrejas, faltam casas, faltam estradas – falta tudo). Face a este entorno inóspito, os imigrantes de língua alemã tendem a ficar unidos primeiro pela língua, a se irmanar e a cultivar e adaptar os seus costumes e a estruturar-se em torno de uma nova comunidade. A adversidade das condições encontradas no país hospedeiro incita-os a manterem-se apegados à memória da pátria (Heimat). As circunstâncias os empurram para essa realidade – a realidade do isolamento na(s) colônia(s).

 

A imprensa pertencente a este grupo imigratório, particularmente no Estado de Santa Catarina, torna-se o veículo por excelência da chamada Deutschtum ou, mais tarde da dita Deutschbrasilianertum (brasilidade alemã), como essa ideologia passa a ser conhecida no país. Segundo Hans Gehse,

 

a tarefa que os jornais alemães no estrangeiro [têm] que desempenhar é de dupla natureza: externamente, perante o governo e o meio-ambiente teuto-brasileiro, defendem os interesses dos imigrantes alemães; e dentro das colônias, [mantêm] o sentimento de filiação à nacionalidade alemã e íntegra a unidade com a velha pátria. (Gehse, 1931, p. 13-14).

 

Entre 1881 e 1945, surgem no Brasil, no Vale do Itajaí, cinco jornais em língua alemã: Blumenauer Zeitung, Immigrant, Der Urwaldsbote, Brusquer Zeitung, Rundschau. Em Joinville, já havia o Kolonie Zeitung desde 1862. A propagação desta ideologia da “germanidade” no Brasil é interpretada na imprensa brasileira, porém, como “perigo alemão”. Entretanto, Giralda Seyferth esclarece:

 

Na verdade, a nação alemã é concebida como uma comunidade étnica homogênea, identificável pelos elementos que compõem o Deutschtum. Uma comunidade étnica que não tem muito a ver com um território específico, embora exista uma entidade política chamada Alemanha. Os membros da comunidade estão espalhados por todo o mundo, e o elo de ligação entre eles é sua Eigenart (índole, característica, peculiaridade) germânica. A união com a Alemanha é muito mais ideológica do que prática, daí o protesto contra as especulações em torno do “perigo alemão”, visto como “mais uma arma política” criada pelos mulatos nativistas para [pôr] sob suspeita as áreas colonizadas por alemães. [...] É difícil supor que a população teuto-brasileira estivesse realmente de acordo com uma possível anexação do sul do Brasil à Alemanha. [...]  A dependência em relação à Alemanha foi muito mais um efeito das idéias nacionalistas dos imigrantes, do isolamento e da homogeneidade étnica inicial das colônias, do que propriamente uma tendência separatista (que a Liga Pangermânica em vão tentou incutir no seu meio). O que dava cunho aparentemente prático a essa dependência eram as demonstrações de lealdade para com o Imperador alemão, na qualidade de chefe ou pai espiritual da “nação alemã”, e o uso da bandeira alemã em algumas solenidades. (Seyferth, 1982, p. 68).

 

 

Com o tempo, impõe-se a identidade designada por Deutschtbrasilianertum (Brasilidade alemã, não alemanidade brasileira). O conceito “cultura” (Kultur) passa a ser usado no sentido de “cultura nacional”, “cultura germânica”, “orgulho nacional”, de realização intelectual e moral, a que apenas alguns chegam, afirmando as diferenças entre os povos, determinando sua originalidade.

 

 Na República de Weimar, este Pangermanismo/Deutschtum é realimentado pelo nazismo: todos os alemães residentes no exterior são considerados alemães (Auslandsdeutsche).

 

Sant’Anna enumera semelhanças entre os discursos pangermanista e nazista. Segundo ele, a diferença principal entre os dois é que, enquanto o pangermanismo aceitava a heterogeneidade do grupo de teuto-brasileiros, o nazismo pregava uma unidade sectária baseada no sangue, na raça e na língua única. (Dietrich, 2007, p. 69).

 

 

Há de fato o objetivo de, através dos imigrantes, disseminar a ideologia nazista pelo mundo, unir a comunidade alemã do Brasil em torno da causa nazista e mesmo recrutar gente para a guerra. E isso realmente chega a acontecer antes de o Brasil cortar relações diplomáticas com a Alemanha. O nazismo é divulgado no Brasil e cooptado por um número considerável de imigrantes[1], o que vem a alimentar o mito de um perigo alemão no país, razão pela qual, o governo Vargas insiste em continuar a “uniformizar” o povo brasileiro, agora em torno do uso exclusivo da língua portuguesa, o que, a seu turno, pressupõe a exclusão de grupos estrangeiros isolados da cultura brasileira. Além disso, os americanos e ingleses alimentam e dão grande visibilidade a essa realidade, por meio de propaganda.

 

 Essa propaganda divulga o que se acredita terem sido as intenções político-militares da Alemanha no sul do Brasil e afirma que os alemães residentes no Brasil, ao contrário do que tinha acontecido na América do Norte, não tinham se incorporado à sociedade brasileira, preservando sua identidade étnica. (Dietrich, 2007, p. 62).

 

 Ora, os alemães têm à época uma comunidade autossuficiente: falam entre eles correntemente o alemão, possuem vários clubes, uma imprensa de língua alemã (jornais, “Kalender”, livros), igreja, escola, programas de rádio, ou seja, uma situação ideal para a divulgação do nazismo. E “o nazismo foi extremamente ativo no Brasil, chegando, realmente, a constituir um perigo à nação”. (Dietrich, 2007, p. 67).

 

Quantas e quais narrativas da literatura brasileira de expressão alemã testemunham estas tentativas de “colonização”? Ein Weihnachtsmärchen, de Robert Weber, poderia ser um exemplo? Der Meisterschuß, de Elly Herkenhoff? Die Sünde, de Karl von Koseritz?

 

Embora a língua alemã tenha sido proibida por Getúlio Vargas em 1942, fato é que houve inúmeras resistências a essa proibição, e aos poucos, sobretudo depois da Guerra, as publicações de Kalender e jornais retomam as atividades: o Serra-Post Kalender em 1948, o Brasil-Post, em 1950. 

 

Haveria uma diferença (qual/quais) entre as produções anteriores à proibição do alemão e aquelas posteriores à proibição, levando-se em consideração a seguinte observação de Hilda Siri?

 

Como de costume, são procurados principalmente poemas que cantem o país e as pessoas, e histórias que devem ser extremamente ingênuas, a fim de não chocar nenhum leitor. É desse modo que, à maneira de um anel de ferro, se fecha o inexorável círculo ao pobre escritor, que tanto gostaria de ver os seus manuscritos impressos, pois isto pertence precisamente ao ofício da escrita, assim como o aplauso pertence ao ofício do teatro. (Siri, 1959, p. 3).

 

Por outro lado, há imigrantes de língua alemã, como Karl von Koseritz, que chegam a tornar-se deputados no Congresso brasileiro e defendem a nação imperial de D. Pedro II. Como serão as imagens do Brasil e como serão as imagens da Alemanha configuradas nas páginas de suas produções? Seriam os brasileiros acompanhados pelos alemães no seu movimento pós-colonial? Seria Der Sohn der Sonne, de Alfred Reitz, um exemplo dessa tendência?

 

Resumindo as considerações do teórico alemão Paul-Michael Lützeler sobre o Pós-colonialismo, pode-se observar que

 

a literatura produzida por minorias e por estrangeiros passa a aparecer no horizonte dos Estudos Pós-Coloniais, provocando fusões entre o discurso pós-colonial e o discurso multicultural. Assim, no centro das atenções desta área de estudos passa a estar, de um lado, a literatura produzida durante o tempo colonial e, de outro, a discussão das obras literárias que veiculam relações (quer neocoloniais, quer emancipatórias) entre o “Terceiro” e o “Primeiro Mundo” e todos os seus desdobramentos.

[...]

A partir de 2000, outras variantes do canônico Pós-Colonialismo surgem e os conceitos de “colonialismo”, “descolonização” e “pós-colonialismo” se abrem, perdendo a referencialidade geográfica para se instalarem na cultura.

Em 2004, por exemplo, Alexander Honold e Klaus Scherpe, de Berlim, publicam Mit Deutschland um die Welt Eine Kulturgeschichte des Fremden in der Kolonialzeit (Com a Alemanha ao redor do mundo. Uma história cultural do exótico durante a época colonial).

Trata-se de variantes voltadas para o exame da configuração linguística dos movimentos migratórios em âmbito global, decorrentes do antigo colonialismo, para o intercultural, impregnado de metamorfoses da tópica do exotismo. Há como que uma redescoberta crítica da história colonial alemã e de uma história cultural mais ampla do colonialismo europeu. ” (Sousa, 2012, p.63-69).

 

 

Sobre o complexo e ainda não exaustivamente investigado pós-colonialismo português (e brasileiro), pergunta Boaventura de Sousa:

 

A colonização por parte de um Próspero incompetente, relutante, originariamente híbrido, redundou em subcolonização ou em hipercolonização? Uma colonização particularmente capacitante ou incapacitante para o colonizado? Um Próspero caótico e absentista não terá aberto o espaço para a emergência de Prósperos de substituição no seio dos Calibans? (Santos, 2006, p. 247-248).

 

O que dizem as narrativas produzidas pelos imigrantes de língua alemã e seus descendentes sobre o assunto? Que imagens do Brasil traziam esses imigrantes em suas memórias, ao chegarem ao Brasil? Como as haviam adquirido? Foram transformadas através das experiências em terras brasileiras? Em que medida e por quê? Como foram propagadas tais imagens? Onde é possível encontrá-las ainda?

 

Sabe-se que

 

antes de os escritores brasileiros se preocuparem com a autoimagem nacional, o território brasileiro já tinha sido alvo de várias tentativas de identificação, isto é, os vários povos que o haviam visitado já lhe haviam tecido uma imagem – uma hetero e  arquiimagem - veiculada em suas literaturas. Trata-se dos cronistas viajantes portugueses, como por exemplo Pero Vaz de Caminha (Carta a el-rei dom Manuel, escrita em 1500, de Pero Magalhães Gandavo (História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamam Brasil, redigida em 1573), de Gabriel Soares de Souza (Tratado descritivo do Brasil, de 1587), de Ambrósio Fernandes Brandão (Diálogos das grandezas do Brasil, de 1618). Embora as primeiras crônicas citadas tenham sido escritas nas datas apontadas, sua publicação é, contudo, tardia: a História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamam Brasil é impressa três anos mais tarde, em 1576, e a Carta só vem a lume em 1817. Além dos portugueses, também  escreveram sobre o Brasil recém-descoberto viajantes franceses, entre eles, o primeiro, chamado André Thevet, frade católico, (Les singularitez de la France Antarctique - As singularidades da França Antártica, de 1558) ou ainda Jean de Léry (L’histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dit Amérique - Viagem à terra do Brasil), publicado pela primeira vez, na França, em 1578, cuja tradução para o português só ocorre em 1889. Além dos franceses, igualmente os alemães estão entre as primeiras testemunhas europeias do Brasil. Já em 1515 surge na Alemanha um pequeno texto de autor desconhecido com o título New Zeutung aus presillandt (Nova gazeta da terra do Brasil) e em 1557, Hans Staden, que havia sido aprisionado pelos índios Tupinambá, publica em Marburg um livro intitulado Wahrhaftige Historia (Duas viagens ao Brasil). Entre muitos outros, sobressai Carl Friedrich Phillip von Martius com um imenso tratado sobre a flora brasileira (Flora brasiliensis), de 1829, e o romance Frei Apolônio de 1831. Sobre a obra de cada um destes autores e da dos demais escritores que tentaram retratar o Brasil há inúmeros trabalhos críticos à disposição dos interessados.

O que se pode perceber dos elementos gerais que constituem a arquiimagem produzida é que eles têm muito a ver com a ideia de paraíso, o que, aliás, é compreensível, pois durante toda a Idade Média se havia acreditado que o paraíso existia de fato em algum ponto da terra, talvez da Índia. Não sendo lá achado, as probabilidades de encontrar-se o Éden na América, no último reduto terrestre a ser desbravado, eram altíssimas. Diante de uma realidade tão exuberante, tão exótica e tão nova, não havia códigos linguísticos apropriados para sua tradução adequada, pelo que se recorre ao mito judaico do Jardim do Éden e aos mitos da Antiguidade Clássica (o Jardim das Hespérides, o velocino de ouro, a fonte da juventude, aos faunos, etc.) e, depois, ao mito do Eldorado para lhe dar forma. Assim, os traços gerais da arquiimagem do Brasil estarão associados num primeiro momento a um espaço fertilíssimo e riquíssimo, de clima ameno, em eterna primavera, ocupado por gente primeva, próxima do primeiro homem. Este substrato, de uma forma ou de outra, dificilmente abandonará as metamorfoses que a heteroimagem do Brasil irá sofrer.” (SOUSA 2009, p.37-39.)

 

Em que medida a literatura produzida no Brasil pelos imigrantes de língua alemã desempenha um papel na criação da autoimagem brasileira? Conhecer o Brasil pressupõe explorar todas estas questões, que são pertinentes à Imagologia, tal como propõe Hugo Dyserinck: o estudo de imagens nacionais no âmbito dos textos literários, formadores de opinião de longo prazo, a fim de se identificar, compreender e superar eventuais problemas no diálogo entre grupos nacionais, entre povos e nações.

 

A recolha e sistematização de todos os textos da literatura produzida pelos imigrantes de língua alemã no Brasil, isto é, da “literatura brasileira de expressão alemã”, uma literatura absolutamente sui generis, propostas pelo projeto em pauta, é imprescindível para a articulação das respostas ainda em aberto.

 

 

 



 

 

 

Fontes bibliográficas:

 

Abbagnano, Nicola. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bosi (coord.). São Paulo, Mestre Jou,1982.

 

Assmann, Aleida. Erinnerungsräume. Formen und Wandlungen des kulturellen Gedächtnisses. München, Beck, 2009.

 

Barone, João. 1942. O Brasil e sua guerra quase desconhecida. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2013.

 

 

Coetzee, J. M.. Diary of a Bad Year. London, Penguin books, 2008. (Trad. José Rubens Siqueira. Diário de um ano ruim. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.

 

Dietrich, Ana Maria. Caça às suásticas. O partido nazista em São Paulo sob a mira da polícia política. São Paulo, Humanitas/Fapesp, 2007.

 

Galle,Helmut & Schmidt, Rainer.  A memória. São Paulo, Humanitas, 2010, p. 221-272.

 

Gehse, H. – Die deutsche Presse in Brasilien von 1852 bis zur Gegenwart. Münster, Aschendorffische Verlagsbuchhandlung, 1931, p. 13-14.

 

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Kandel, Eric R.. In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind . New York, W. W. Norton, 2007.

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Lützeler, Paul Michael (ed.). Der postkoloniale Blick. Deutsche Autoren berichten aus der Dritten Welt. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1997.

 

Lützeler, Paul Michael (ed.). Schriftsteller und “Dritte Welt”. Studien zum postkolonialen. Tübingen: Stauffenburg, 1998.

 

Lützeler, Paul Michael. Postmoderne und postkoloniale deutschsprachige Literatur. Bielefeld: Aisthesis, 2005.

 

Nora, Pierre  (org.).  Les lieux de mémoire. Paria, Gallimard, 1984-1992, vários volumes.

 

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Olmi, Alba. Memória e memórias: dimensões e perspectivas da literatura memorialista. Santa Cruz do Sul, EDUNISC/Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul, 2006.

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Santos, Boaventura de Sousa. Gramática do tempo. São Paulo, Cortez, 2006.

 

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Seyferth, Giralda - Nacionalismo e identidade étnica. A ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí.  Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1982.

 

 

Siri, Hilda. Bodenstaendiges Schriftum. Betrachtungen einer deutschbrasilianischen Dichterin. In: Brasil-Post, 24 out. 1959, p. 1 e 3.

 

Sousa, Celeste Ribeiro de. O suíço Hugo Loetscher, 1979: um olhar pós-colonial sobre o Brasil? In: Fernandes, Giséle Manganelli (org.). Para além dos pós-colonialismos e dos pós-nacionalismos. São José do Rio Preto, HN Editora & Publieditorial, 2012, cap. IV, p. 63-89.  http://editorahn.grupohn.com.br/para-alem-dos-pos-nacionalismos-e-pos-colonialismos.

 

Sousa, Celeste Ribeiro de. A imagologia no Brasil: primeira tentativa de sistematização. In: Revista de Literatura Comparada 14, 2009, p. 37-55.  http://www.abralic.org.br/revista/2009/14.

 

Sousa, Celeste Ribeiro de. Uma narrativa safa em época de censura. In: http://sibila.com.br/mapa-da-lingua/uma-narrativa-safa-em-epoca-de-censura/9374.

 

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Weber, Robert. Ein Weihnachtsmärchen. In: www.martiusstaden.org.br (PESQUISA).

 



[1] Sobre o “encontro” de soldados de língua alemã, nascidos no Brasil, em fronts inimigos durante a 2ª Grande Guerra, leia-se: Barone, João. 1942. O Brasil e sua guerra quase desconhecida. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2013.